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Fertilidade 28 de setembro de 2026

Canetas emagrecedoras e fertilidade: o que saber antes de tentar engravidar

Caneta aplicadora de medicamento em primeiro plano e, ao fundo, a ilustração de um óvulo com um espermatozoide se aproximando; no canto, a foto do Dr. Carlos Portocarrero.

As chamadas canetas emagrecedoras — medicamentos da classe dos análogos do receptor de GLP-1, como a semaglutida e a tirzepatida — mudaram a conversa sobre tratamento da obesidade no Brasil. Junto com elas, chegou aos consultórios de ginecologia uma pergunta nova e cada vez mais frequente: o que esses medicamentos têm a ver com a fertilidade e com o planejamento de uma gravidez?

A resposta é mais complexa do que as redes sociais sugerem. Existem efeitos indiretos sobre a fertilidade, existe uma interação farmacológica relevante com anticoncepcionais orais e existe uma recomendação clara de suspensão do medicamento antes da concepção. Cada um desses pontos merece ser entendido separadamente — e discutido com o médico que acompanha o caso.

Por que o peso interfere na fertilidade

A relação entre excesso de peso e dificuldade para engravidar está bem estabelecida. Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), a obesidade está associada a processos inflamatórios crônicos e a desregulação hormonal que prejudicam a ovulação, comprometem a qualidade dos óvulos e interferem na receptividade endometrial.

Esse cenário se intensifica na síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP), em que a resistência à insulina e o hiperandrogenismo alimentam um ciclo de anovulação. A FEBRASGO estima que entre 40% e 85% das mulheres com SOMP apresentam excesso de peso, criando um círculo em que o ganho ponderal agrava os sintomas e os sintomas favorecem o ganho de peso.

A boa notícia é que a reversão não exige números extremos. Reduções modestas, na faixa de 5% a 10% do peso corporal, já podem melhorar a regularidade dos ciclos, favorecer a ovulação e preparar melhor o organismo para uma gestação. É justamente aqui que os análogos de GLP-1 entram na discussão: ao tratarem a obesidade, podem melhorar indiretamente o cenário reprodutivo.

As gestações não planejadas durante o tratamento

O fenômeno que ficou conhecido popularmente como "bebês do Ozempic" descreve gestações que aconteceram sem planejamento em mulheres que usavam essas medicações. Há duas explicações plausíveis, e elas podem se somar.

A primeira é a retomada da ovulação. Mulheres que conviviam com ciclos irregulares ou anovulatórios por conta do excesso de peso podem voltar a ovular com a perda ponderal — e engravidar em um momento em que não esperavam essa possibilidade.

A segunda é uma interação medicamentosa específica. A tirzepatida retarda o esvaziamento gástrico, o que pode reduzir a absorção de medicamentos tomados por via oral, incluindo a pílula anticoncepcional. O efeito é maior após a primeira dose e diminui com o tempo. Por isso, a orientação de bula é que, para quem usa anticoncepcional oral, seja considerada a troca por um método não oral ou a associação de um método de barreira por 4 semanas após o início do tratamento e por 4 semanas após cada aumento de dose. Métodos hormonais que não passam pelo trato digestivo — como DIU hormonal, implante e injetáveis — não sofrem essa interferência.

Quanto tempo antes de engravidar o medicamento deve ser suspenso

Este é o ponto mais importante da conversa: os análogos de GLP-1 não são indicados na gestação. Estudos em animais mostraram maior ocorrência de malformações com a exposição a essas substâncias, e os dados de segurança em gestantes humanas ainda são limitados.

A recomendação depende do princípio ativo e da sua meia-vida:

  • Semaglutida: a bula orienta descontinuar o medicamento pelo menos 2 meses antes de uma gravidez planejada — prazo que considera a meia-vida de aproximadamente 1 semana da substância.
  • Tirzepatida: a meia-vida é de cerca de 5 dias, e a conduta em relação ao intervalo pré-concepcional deve ser individualizada com o médico prescritor.

Em ambos os casos, a orientação é que mulheres em idade fértil utilizem método contraceptivo eficaz durante o tratamento e que o medicamento seja interrompido caso a gravidez aconteça ou seja desejada. A FEBRASGO reforça que esses análogos devem ser suspensos meses antes da concepção.

Existe ainda um segundo aspecto pouco discutido: a suspensão pode ser acompanhada de reganho de peso. Planejar a interrupção com antecedência permite organizar a transição para estratégias de manutenção — alimentação, atividade física e acompanhamento clínico — antes do início das tentativas.

E a fertilidade masculina?

A Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), em nota técnica conjunta com a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), avalia que os análogos de GLP-1 representam uma estratégia promissora para o manejo da obesidade em homens em idade reprodutiva, com potencial impacto positivo sobre parâmetros seminais — provavelmente decorrente da perda de peso e da melhora metabólica.

As entidades ponderam, no entanto, que a evidência ainda é limitada e heterogênea, com relatos isolados de piora reversível dos parâmetros seminais. A recomendação oficial é de abordagem individualizada, com monitoramento clínico e laboratorial.

A decisão precisa ser compartilhada

Não existe uma resposta única que sirva para todas as pacientes. A conduta depende do princípio ativo em uso, da dose, do tempo de tratamento, do grau de urgência reprodutiva, do diagnóstico de base — SOMP, endometriose, infertilidade sem causa aparente — e do método contraceptivo em uso.

O que não deve acontecer é a paciente interromper ou iniciar o medicamento por conta própria, ou assumir que o anticoncepcional oral segue plenamente eficaz durante o tratamento. Essa é uma conversa para ser conduzida em conjunto entre o ginecologista, o especialista em reprodução humana e o médico responsável pelo tratamento da obesidade.

Avaliação da fertilidade em Brasília

O Dr. Carlos Portocarrero é ginecologista e obstetra, formado em Medicina pela Universidade Nacional Mayor de San Marcos, em Lima, no Peru, com residência realizada no Hospital Regional do Gama (DF). Fez pós-graduação no IVI (Instituto Valenciano de Infertilidade), na Espanha, referência mundial em reprodução assistida, e presidiu a Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de Brasília (SGOB) no biênio 2014-2015. É professor de Ginecologia do Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos (UNICEPLAC) e um dos fundadores da Bonvena — Medicina Reprodutiva e Centro de Referência em Endometriose, onde atende em Brasília (DF).

Se você usa ou pretende usar uma caneta emagrecedora e tem planos de engravidar, agende uma consulta para avaliar o melhor momento e a melhor estratégia para o seu caso.

Revisão técnica

Conteúdo revisado por Dr. Carlos Portocarrero — CRM-DF 9567 · RQE 12695. Ginecologia, Obstetrícia e Medicina Reprodutiva, em Brasília-DF.

Conteúdo de caráter informativo e educacional. Não substitui a consulta médica, o diagnóstico ou o tratamento individualizado. Em caso de sintomas, procure avaliação especializada.

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